A MUDANÇA
Sexta-feira. Na casa há caixas, pacotes, móveis fora do lugar. Saí de manhã bem cedo para um passeio e quando voltei encontrei tudo assim. Há alguns dias que eu observava dona Ana andar de um lado para outro fazendo desarrumações. Ela que sempre me dava atenção e demonstrava gostar muito de mim, ultimamente me ignorava. Nesta sexta-feira, então, nem me olhava. Entrei na sala e ali fiquei. Dona Ana andava de um lado para outro encaixotando tudo. O marido e o filho puxavam móveis para perto da porta.
- Mãe, que horas são?
- Duas horas, o caminhão está atrasado.
A família estava apreensiva e ninguém me dava atenção.
Três da tarde, o caminhão chegou e com ele três homens desconhecidos que começaram a carregá-lo com caixas e móveis. Dona Ana foi na cabine segurando seu quadro relógio (que retratava a Santa Ceia). O caminhão partiu e ninguém da família olhou para trás, apenas um dos desconhecidos ficou na casa.
Uma hora depois o caminhão estava de volta. Dona Ana não estava com eles. Recomeçaram a fazer a mudança que ainda estava na casa. Comecei a andar pelos cômodos, tudo vazio. Fui até os quartos. Nesse instante ouvi o caminhão partir. Sinto-me sozinho, um vazio toma conta de mim. O mesmo desconhecido que antes ficara na casa começa a fechá-la.
- Sai cachorrinho!
Saio e vou me deitar embaixo do pé de acácia. Começa a escurecer.
Sinto frio, fome e solidão.