O QUE É TER UM CÃO

Ter um cachorro, como fazem muitos, para admirar a elegância de seu corpo, orgulhar-se com sua genealogia, enfeitá-lo com paletós, botinas, óculos, aproveitar suas qualidades para a caça ou guarda de nossa casa, isso não é amar, nunca foi amar! É apenas tirar proveito dos animais para satisfação do nosso egoísmo ou da nossa vaidade.

Amá-los é convive r com eles, interessar-se pelos mil incidentes miúdos de sua vida de cachorros, tratá-los como nossos irmãos mais moços, mais fracos, portanto mais dignos de piedade. Inclinar-se sobre sua pequena alma.

Já não vivemos na ép oca dos cartesianos e ninguém põe hoje em dúvida, suponho, a existência da alma canina. São Tomás de Aqu ino já concedia aos animais uma alma imaterial. E há bondade numa pequena alma de cão! Há neles uma tal ternura, uma confiança tão ingênua, um esforço tão ardente para nos compreender! Entregam-se tão completa, tão exclusivamente a nós! Parece dizer-nos:
"Tu foste a princípio meu inimigo, entretanto não te quero mal.

Amo-te. Mais ainda, abandonando as florestas selvagens, venho morar contigo nas cidades barulhentas.
És meu Senhor, meu Deus. Serei o mais fiel de seus criados, amar-te-ei com todas as forças de minha minúscula alma de cachorro.

Amar-te-ei sem te julgar, porque o dia em que começamos a julgar o ente querido marcamos o início do fim do nosso amor. Mas não te julgarei nunca.

Nunca te pedirei satisfação pelas tuas injustiças.

Dou-te todo o meu afeto, meu corpo, minha alma e, em troca, só te peço algumas migalhas de pão e um pouco de amor. Por ti vou trair meus irmãos animais. Repudio-os e celebro contigo uma aliança. Fico ao teu lado. Se fores atacado por um deles, defender-te-ei cegamente sem fugir, sem me deixar corromper e, se for preciso, saberei morrer por ti".

(Roberto Gomes)


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